A presença brasileira e seus fins

1º) A ação do Império sobre o Prata definiu-se em função de necessidades internas do Brasil, às quais foram acoplados objetivos concretos de seu interesse. Podiam estes últimos coincidir ou conflitar com interesses das potências capitalistas, que também se faziam presentes na região. A eliminação de Oribe e Rosas não levou à superação das contradições locais, que repercutiam ainda sobre a vida política e sobre a formação dos Estados.

2º) Coordenando uma ação diplomática intensa com as finanças e o comércio, exercia o Estado brasileiro sua hegemonia, obtendo ganhos sem ter de fazer a guerra, à sombra de sua força, cujo emprego estava reservado somente a soluções de última instância.

3º) Movia-se o Brasil, no Prata, pelos motivos descritos a seguir:

  • Finalidades econômicas: Convinha manter um comércio regular em que preponderava, sem dúvida, a necessidade brasileira de importação do charque, já que a produção rio-grandense era decadente e insuficiente para alimentar a massa escrava que movia o sistema produtivo. Menos dependente era o Prata de produtos brasileiros (erva-mate, tabaco, açúcar, café, madeira), embora não fosse um mercado desprezível. Nesse sentido se entende a vontade de manter um controle mais direto sobre o Uruguai, principal fonte de abastecimento. Quanto ao Paraguai, o comércio bilateral era minguado, mas no correr da década de 1850 os dois países entraram e concorrência para dominar o mercado regional da erva-mate e posteriormente se encontrariam no mercado internacional do algodão. Os interesses brasileiros se estabeleceram igualmente no domínio das finanças, mediante empréstimos feitos aos governos da região. Era condição para o desempenho dessas atividades econômicas a livre navegação dos rios interioranos, e nesse ponto o interesse brasileiro coincidia com o das potências capitalistas, Estados Unidos, França e Inglaterra.. Não foi, entretanto, o Brasil a reboque dessas potências, com a finalidade de abrir pela força a economia paraguaia ao liberalismo internacional.
  • Finalidades estratégicas e de segurança. Os objetivos que guiavam a ação brasileira nesses domínios eram a defesa intransigente das independências locais, condição favorável ao exercício de sua hegemonia, o acesso a Mato grosso pelo estuário, tanto para os navios de comércio quanto de guerra, a definição jurídica das fronteiras, a segurança das fronteiras e a liberdade de trabalho dos brasileiros residentes no Uruguai. Nos objetivos de segurança não figurava a expansão territorial, incompatível com a preservação da independência e integridade dos Estados, uma variável central da geopolítica brasileira.
  • Finalidades políticas. Era do interesse brasileiro o funcionamento normal de instituições liberais, condição para a manutenção das relações duradouras e construtivas e para o incremento do liberalismo econômico. O visconde do Rio Branco, herdeiro e principal condutor da política conservadora de 1850, nas duas décadas seguintes, ligava sempre economia e política, desejava a prosperidade dos vizinhos em ambos os terrenos e pretendia construir sobre tais elementos um sistema de relações pacíficas, confiantes e benéficas. Não foi capaz, entretanto, o governo brasileiro de conduzir-se com imparcialidade ante as facções uruguaias (blancos e colorados) e argentinas (unitários e confederados), por ser impossível um tal desígnio, estando os interesses brasileiros fatalmente vinculados a lideranças antagônicas. Administrou a diplomacia brasileira esses antagonismos enquanto pôde, mas não sem arranhar o bom entendimento político no âmbito do Estado, No balanço geopolítico dos fatores, tinha o Uruguai maior importância econômica, a Argentina maior importância política, permanecendo o Paraguai na tradicional função de trunfo estratégico.

4º)  Uruguai como importância econômica. Os tratados de 1851 estabeleceram sobre o Uruguai um semiprotetorado brasileiro, que Urquiza e Buenos Aires tolerava, mesmo que a força fosse empregada mantê-lo. Houve nesse período a exploração brasileiras das pastagens uruguais, o controle das finanças públicas uruguaias e a delimitação das fronteiras segundo o desejo brasileiro. Provocou-se, entretanto, a hostilidade internado Partido Blanco e as reclamações dos brasileiros residentes no Uruguai

5º) Do lado argentino, o governo brasileiro protestava neutralidade ante o conflito entre Buenos Aires e a Confederação, desde o rompimento de 1853. Apesar de solicitado por ambos os lados a tomar partido, o Brasil soube mover-se com desenvoltura suficiente, porque simpatizava com Buenos Aires pelas suas instituições liberais, mas não abandonava Urquiza, seu homem de confiança. Se, por um lado, essa imperfeita neutralidade custou-lhe a rejeição dos tratados de limites e definitivo de paz (relativo ao Uruguai), valeu-lhe um relacionamento político civilizado, que jamais se verificara. Obteve ainda garantia de uma meta estratégica, induzindo não só o reconhecimento argentino da independência do Paraguai, como também o apoio contra os Lopez, quando se fez necessário.

6º) Era desse lado com efeito, que as relações pioravam, apesar de tratado de aliança de 1850. Desejava o governo paraguaio a fixação dos limites contra o Brasil, que exigia previamente a liberdade de navegação. Convênios e acordos se sucediam, eram violados, ameaças e demonstrações de força ocorriam de lado a lado. Ambos se miravam com desconfiança e cogitavam na guerra, de tempos tempos, para cortar as dificuldades. A substituição de Carlos Antônio Lopez por seu filho, Francisco Solano Lopez, em 1862, acentuou o radicalismo. aconselhado por seu pai, no leito de morte, a não recorrer à guerra contra o Brasil para superar as pendências, encaminhará sua política precisamente no rumo contrário. Armou seu país acima das conveniências, adotou a teoria do “Equilíbrio dos Estados” do Prata e aceitou o convite dos blancos uruguaios para compor um eixo, que na sua expectativa ainda atrairia Urquiza.

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