O retorno às soluções de força

1º) No início da década de 1860, importantes modificações ocorreram no Prata, quanto à composição das forças sociais e institucionais, com repercussões no âmbito das relações entre os Estados. A vitória de Mire sobre Urquiza, em 1861, e sua ascensão à presidência da nova República Argentina, no ano seguinte, significavam enfim o triunfo dos unitários sobre os federalistas, do liberalismo buenairense sobre a economia natural e pré-capitalista do interior. A propensão da nova Argentina encaminhava-se logicamente no sentido de apoiar transformações similares nos arredores, embora não se dispusesse Mitre ao emprego da força para tal fim. Seu aliado natural era precisamente o Brasil, com cuja ideologia de governo afinava-se por inteiro.

2º) Em tais circunstâncias, o Uruguai tornou-se um complicador visto que Berro, um blanco, aliado dos primitivos, mantinha-se na presidência, desde 1861. Seu governo, embora modernado, tanto quanto lhe permitia a exaltação partidária, envolver-se-á em dois contenciosos externos ao mesmo tempo: do lado brasileiro. criará dificuldades ao comércio favorecido, impondo direitos à passagem do gato em pé para as charqueadas riograndenses e negando-se a novo tratado de comércio. Pressionado de todos os lados, argentino e brasileiro, nesse último pelo Parlamento também, o governo blanco buscou o Paraguai, de onde supôs poder chegar o último socorro possível.

3º) O Paraguai dos Lopez ressentia-se historicamente do minguado papel que lhe reservara em assuntos internacionais o subsistema regional, desde que Carlos Antonio engajara sua abertura externa. Nâo tomara parte dos eventos que liquidaram Oribe e Rosas, não conseguia imiscuir-se nos destinos de outras nações. A esse minguado papel correspondia paradoxalmente, uma vontade nacional de potência, amparada numa economia próspera e em efetivos militares extraordinários. Tinha o Paraguai duas pendências externas de limites. A essas dificuldades ainda se acrescia a da navegação para o Mato Grosso, de interesse vital para o Brasil.

4º) Francisco Solano Lopez, mais que seu pai, estava determinado a marcar presença efetiva no rumo dos acontecimentos regionais, construindo, em conformidade com o pensamento blanco uruguaio, a teoria do “Equilíbrio dos Estados“. Significava, na prática, a intenção de preservar os pequenos, Uruguai e Paraguai, das intervenções dos grandes, Argentina e Brasil. Significava, em teoria, a possibilidade de se construir o terceiro Estado, de dimensão e potência similar aos dois grandes, reunindo Uruguai, Paraguai, Corrientes e Entre-Rios e, quiça, as missões riograndenses.

5º) Os desígnios brasileiros com relação ao Prata, apesar as novas ideologias, instituições e visões dos homens de Estado que se faziam presentes na região, permaneciam na década de 1860 os mesmos da década anterior. E a estratégia também: manter como instrumento de conquistas a arma da diplomacia. Daí por que as Forças Armadas, no Brasil ,eram negligenciadas e relativamente limitadas, se comparadas às do Paraguai. A crença na superioridade era tal, que não entrava no cálculo dos estadistas brasileiros o perigo da guerra platina. 

6º) Ideologicamente, a guerra no Prata podia-se justificar pelo lado do liberalismo, cuja implantação sobre a região sob a forma modernizadora não estava consumada. Pelo lado econômico, nada entretanto aconselhava seu desencadeamento, embora posteriormente, como é natural, tenha se convertido em “grande negócio”. A explicação da conspiração capitalista, reunindo Inglaterra, Argentina e Brasil para destruir o sistema fechado e autônomo do Paraguai deve-se tributar a distorções da análise histórica. A essas economias, às quais já se integrava o Paraguai na época, interessava o incremento das relações, como desejado e encaminhado pelo governo dos Lopez.

7º) A guerra internacional no Uruguai e no Paraguai foi precedida de intensa movimentação diplomática. Dois eixos se cruzavam em Montevidéu, ligando, o primeiro, Buenos ao Rio de Janeiro e o segundo, Montevidéu a Assunção. O eixo Brasil-Montevidéu-Buenos Aires empanhava-se na solução do conflito interno uruguaio e era coordenado pelo enviado brasileiro José Antônio Saraiva. Seguira este em importante missão ao Prata, com pretexto de obter reparações pelas violências praticadas contra os brasileiros residentes no Uruguai, mas seu fim era restabelecer o controle brasileiro e salvaguardar aí os interesses tradicionais, que respondiam às necessidades já conhecidas. Desviou-se sua missão, entretanto, e , com a participação do governo Mitre e do representante inglês em Buenos Aires (embora estivessem rotas as relações entre Brasil e Inglaterra), incumbiu-se da mediação entre Flores e Aguirre, o novo chefe dos blancos no poder.

8º) Os liberais brasileiros, então no poder, exigiam de Saraiva a obtenção de reparações e forçaram-no a executar um ultimátum nesse sentido, quando fracassaram os entendimentos de paz. As tropas brasileiras penetraram o território uruguaio, aliaram-se à sublevação e só não bombardearam Montevidéu porque lá fora estabelecido Flores, com quem Paranhos, o novo enviado brasileiro, concluíra um convênio em 1865, restabelecendo a paz e compondo a primeira aliança contra o Paraguai. Na guerra Uruguaia, o governo Mitre tomou parte ativa, embora tenha astuciosamente usado a presença brasileira para atingir seu fim. Saíra-se, entretanto extremamente ressentido o governo liberal brasileiro com o desfecho da guerra uruguaia, porquanto não obteve as reparações que exigia, e fora ainda brindando com a agressão paraguaia a seu território, em razão da intervenção no Uruguai. Paranhos foi sumariamente demitido.

9º) O eixo Montevidéu-Assunção era concomitantemente percorrido por inúmeros e febris emissários blancos que insistiam de forma crescente e até insolente para que transitasse Lopez das intenções e palavras à ação efetiva, vindo em socorro de seus aliados. A tentação era grande para Lopez fazer enfim emergir seu prestígio, mas durante muito tempo hesitou. Ninguém, todavia, lhe dava ouvidos, protelando-se respostas e desconsiderando ameaças. Era, talvez, humilhação demasiada para quem dispunha de forças superiores às dos vizinhos somadas, procurava criar seu espaço diplomática e pretendia fazer-se imperador.

10º) No Brasil e na Argentina, alimentava-se ingenuidade de que o Paraguai não faria a guerra, e por isso era desqualificado internacionalmente sem receios. Ora, Lopez agia por si, tanto é que, ao atacar os dois países, não foi em socorro dos blancos, e essas atitudes, que desnortearam diplomatas e políticos de então, são hoje mais compreensíveis. Três erros básicos cometeu Lopez, ao desencadear a guerra:

  • Acreditar na dissidência de Urquiza, que acabou colocando sua espada à disposição de Mitre
  • Contar com os blancos, que debandaram ante as tropas brasileiras
  • Dispersar o exército, em vez de tomar Montevidéu e Buenos Aires e negociar em posição de força. Também não calculou a facilidade com que se concluiria a tríplice aliança de 1º de Maio de 1865, embora não lhe faltassem informações para perceber que vinha essa aliança sendo gestada, pelo menos desde 1857.

11º) A guerra foi financiada com recursos do Tesouro brasileiro, que repassou grandes empréstimos à Argentina, e com recursos de banqueiros ingleses, interessados apenas em transações rentáveis, mesmo à revelia do governo de Palmerston. Este não teve responsabilidade alguma sobre a origem ou sobre o andamento das operações, nem contava aqui com “vassalos”, dispostos a executar seus desejos. A guerra, desencadeou-a Lopez, e sua condução foi sim resultado da vontade de Estado, brasileira em primeiro lugar e argentina em segundo. Foi uma determinação do governo brasileiro eliminar Lopez, como fez com Rosas no passado. Daí o prolongamento da guerra, que se tornou desde cedo impopular tanto no Brasil quanto no Prata. Sustentavam-na interesseiramente os que dela se beneficiaram: fornecedores, comerciantes, atravessadores e o próprio Mitre, que recebia recursos volumosos com que equilibrava suas combalidas finanças públicas e liquidava a oposição interna.

12º) Para fazer cumprir sua vontade externa, administrou o governo brasileiro sua ação diplomática ao estilo de uma potência periférica. Restabeleceu as relações diplomáticas com a Inglaterra, com evidente pragmatismo. Dobrou a neutralidade perfeita de Napoleão III, tornando-a positiva e favorável. Abriu o Amazonas à navegação internacional em 1866, quando o fato não mais representava um risco de dominação externa, no momento em que convinha dirimir um contencioso com as repúblicas ribeirinhas e com as grandes potências. Concertou-se com a Bolívia, após arvorar-se astuciosamente defensor de seus presumíveis direitos sobre o Chaco em 1867, firmando um tratado de amizade, limites, comércio, navegação e extradição que dissuadiu possível aliança daquele vizinho com o Paraguai. O Brasil renegou também todas as propostas de mediação da Inglaterra, Estados Unidos e da maior parte dos países da América do Sul. Impôs finalmente, após a guerra, sua vontade sobre o próprio governo argentino, impedindo, ao preço de nova guerra, se necessário, a absorvição do território paraguaio à margem direita do rio, até a baia Negra, conforme ele pretendia.

13º) Substituindo aos liberais em 1868, em razão da crise no comando do Exército, opondo Caxias ao Gabinete, os conservadores irão recuperar a tradicional política de amizade e proteção ao Paraguai, aliada ao cálculo do perigo argentino. As negociações de paz iriam destarte complicar-se e prolongar-se. Paranhos tomaria duas vezes o caminho do Prata para negociar a paz, Cotegipe firmaria em Assunção a paz em separado, em 1872, passando por sobre os termos da aliança. Mitre viria ao Brasil para negociar, Tejedor o seguiria com o mesmo fim.

14º) Enquanto isso, enquanto não fosse cumprida a vontade brasileira, manteria o governo a ocupação do Paraguai. Somente em 1876 as negociações em Buenos Aires chegaram a termo, concertando-se contento, pelo menos formalmente, as três partes envolvidas e concluindo-se a “questão argentina”, que tantos arroubos produzira, golpes e contragolpes diplomáticos, mas que se arrastara enfim, perdendo força. As tropas brasileiras evacuaram de pronto o território paraguaio, após seis anos de ocupação.

COMPLEMENTO – LIVRO “MALDITA GUERRA” DE FRANCISCO DORATIOTO

15º) Havia certeza da responsabilidade de Solano Lopez, quer no desencadear da guerra, ao invadir o Mato Grosso, quer na destruição de seu país, pelos erros na condução das operações militares. A teoria conspiratória do envolvimento inglês vai contra a realidade dos fatos e não tem provas documentais.

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