Um balanço dos resultados

1º) Que significaram os 25 anos da presença brasileira efetiva no Prata, entre 1851 e 1876? Na ótica do sistema internacional, estabeleceu-se uma hegemonia periférica, porquanto a presença brasileira se concretizou pela substituição das potências anteriormente dominantes, e sua ação preencheu os requisitos do conceito:

  • Comandou, pela via diplomática, um sistema de acordos e alianças favoráveis aos desígnios da vontade nacional
  • Usou da força para dobrar a vontade dos Estados platinos, quando o requeriam as circunstâncias
  • Submeteu os mesmos Estados à dependência financeira, por meio de empréstimos e dívidas públicas
  • Abriu-os à penetração econômica privada e garantiu o fornecimento de matérias-primas indispensáveis à manutenção de seu sistema produtivo
  • Obstou ao aparecimento de uma hegemonia concorrente no período

2º) O exercício da hegemonia brasileira revestiu-se em grau moderado do caráter imperialista, na medida em que:

  • A ostentação ou o emprego da força amparavam os objetivos econômicos e geopolíticos
  • A presença brasileira contribuiu para a expansão do capitalismo, promovendo a liberalização das instituições e das relações de produção

A dominação foi mais acentuada sobre os dois Estados menores, Uruguai e Paraguai, contemplados, respectivamente, com as diktats de 1851 e 1872, obtendo a Argentina parcial satisfação nos acordos de 1876

3º) Marchava o Brasil com vontade e objetivos próprios, confrontando-se comas potências capitalistas que competiam na área. Do ponto de vista econômico, as repercussões internas da aventura platina foram muito negativas:

  • Os custos, ainda não quantificados com precisão, desviaram da modernização interna um enorme volume de capital. 
  • A alternativa racional apontaria para seu aproveitamento no projeto de 1844, oque sem dúvida teria salvaguardado a segurança do lado do Prata, pela simples construção da potência econômica.
  • Os empréstimos concedidos ao Uruguai não foram ressarcidos, e as dívidas de guerra do Paraguai, tanto públicas quanto privadas, jamais foram liquidadas.

4º) Enfim, os empreendimentos de Mauá foram à bancarrota no Prata, provocando sua falências no Brasil. O charque platino tinha mercado cativo nas regiões escravistas do Brasil e de Cuba, sendo dispensável o emprego de métodos imperialistas para obtê-lo. No Parlamento brasileiro, a política platina era objeto de controvérsias permanentes, o que contribuiu para o fortalecimento das instituições que jamais estiveram ameaçadas por um perigo qualquer advindo do Sul.

5º) Foram contradições internas que levaram ao declínio da Monarquia, nelas se compreendendo a própria questão militar de 1868 e a determinação de conduzir a guerra no Paraguai ao extremo, por uma “questão de honra”.  De modo geral, os partidos se compunham em termos de política externa, apoiando em princípio o governo em nome do superior interesse nacional, sem abdicar do direito à crítica, permanentemente exercido. A controvérsia estabelecia-se a nível pessoal.

6º) Situava-se, num extremo, a doutrina da não intervenção, que se opunha com veemência à política platina em vigor, fundando-se na teoria do ciclo da violência (intervenção-hostilidade-reação-intervenção). No outro extremo, raciocinavam e se firmavam os intervencionistas radicais, com base na doutrina europeia da “segurança imediata e interesses essenciais. ”

7º) O centro do pensamento político brasileiro aplicado às relações externas girava em torno de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, que aglutinava a maioria dos homens públicos em favor da “neutralidade limitada”, uma formulação política moderada e enérgica ao mesmo tempo, sensível ao conceito de soberania e mais ainda ao do interesse nacional a defender. Correspondeu essa corrente à sustentação ideológica da política externa no período.

8º) No Prata, a ação brasileira teve seus paradoxos. Voltada, em princípio, segundo o catecismo conservador que prevaleceu, ao fortalecimento dos pequenos Estados, acabou não resolvendo as contradições internas no Uruguai, perturbando seu sistema produtivo e arrasando a potência paraguaia, o aliado natural. Por outro lado, se impôs enfim a vontade brasileira na conclusão da guerra com o Paraguai, contribuiu ironicamente para fortalecer a Confederação e, depois, para o advento da República Argentina, única potência rival em seus cálculos estratégicos, e ainda deixou pendentes o tratado definitivo de paz relativo à convenção de 1828 sobre o Uruguai e a grave questão dos limites. Embora tenha mantido o mapa político regional, o Brasil teria no futuro que se relacionar com uma nova República Argentina, Estado consolidado, em condições de articular as forças produtivas internas e de competir externamente.

9º) Duas vertentes originam-se das análises recentes que privilegiam o papel dos Estados. A radical, hobbesiana, parte do pressupostos segundo o qual cada Estado tinha por objetivo em sua ação externa o enfraquecimento, senão mesmo a destruição dos outros Estados, e concebe as relações internacionais em situação de guerra permanente e universal, como se relegadas fossem ao domínio do irracional.

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