As relações com os Estados Unidos (início da República)

1º) Outro exemplo de mudança significativa nas relações internacionais decorre da República observou-se por ocasião da I Conferência Internacional Americana (1889-1890), ocorrida em Washington, por convocação do governo norte-americano. Realizava-se o conclave quando foi proclamada a República no Brasil. As instituições recebidas pela delegação brasileira, chefiada pelo ex-republicano e então monarquista Lafaiete Pereira, faziam, realisticamente, várias reservas ao encontro.

2º) Os diplomatas do Império percebiam que os Estados Unidos estavam consolidando um subsistema de poder no continente americano e, por isso, reagiram desfavoravelmente às iniciativas que pudessem tolher a liberdade de ação do país. Com referência ao arbitramento – um dos itens do encontro interamericano – embora não tenha sido visto pela diplomacia imperial como o objeto principal da conferência conforme se fez constar, as instruções eram claras. Considerou-se “de muita gravidade, se o governo americano, que tende de algum tempo a assumir uma espécie de protetorado sobre os Estados da América., tiver pretensão de ser escolhido como árbitro perpétuo. A posição da diplomacia imperial em face do arbitramento obrigatório era praticamente singular em relação à das demais nações do hemisfério, pois aceitava apenas o arbitramento facultativo.

3º) A diplomacia imperial valorizava os antigos vínculos: “O Brasil não tem interesse em divorciar-se da Europa; bem ao contrário, convém-lhe conservar e desenvolver as suas relações com ela, quando mais não seja para estabelecer um equilíbrio exigido pela necessidade de manter a sua forma atual de Governo. Quanto ao item referente ao desenvolvimento dos meios de comunicação para melhor circulação de mercadorias entre as nações americanas, o Império foi também reativo, com o argumento de que os meios disponíveis atendiam às necessidades do país, e quando as relações comerciais exigissem seu incremento, as empresas particulares acorreriam de tal modo a atender à demanda. Assim, não deveria o Brasil prender-se a compromissos internacionais.

4º) Após a proclamação da república, Lafaiete Rodrigues foi substituído por Salvador de Mendonça. Quintino Bocaiuva, ao assumir a pasta do ministério, autorizou Salvador de Mendonça a dar “espirito americano” às instruções provenientes do regime anterior. Era uma expressão um tanto dúbia. Que poderia significar concretamente? Naquele momento significava ingressar o Brasil numa fase de aproximação íntima com os países da América, especialmente os Estados Unidos, mudando, dessa forma, a atitude do Império, que era de reticência, cautela e não envolvimento. Na I Conferência, Quintino modificou o critério que vinha sendo seguido pela monarquia com referência ao arbitramento. Outra mudança de atitude que merece destaque foi a aproximação dos pontos de vista entre as delegações do Brasil e da Argentina

5º) Com referência especificamente às relações bilaterais com os Estados Unidos, basta reforçar que a instauração da República inaugurou uma nova fase, marcada por ampla cordialidade e entendimento. Para os norte-americanos afigurou-se o ensejo de aumentar sua influência sobre o Brasil, até então ligado ao concerto europeu, mais exatamente a Grã-Bretanha, em razão dos interesses financeiros e comerciais.

6º) Nesse contexto de confraternização, Quintino Bocaiuva sondou a possibilidade de se firmar uma “aliança íntima” com os Estados Unidos, quase quebrando a tradição – que se manteve ao longo do período americano – de não obrigar o país com tratados dessa natureza. O momento todavia, ensejou a assinatura do convênio comercial de 31 de Janeiro de 1891, também conhecido como tratado “recíproco” (TRATADO BLAINE-MENDONÇA). Seu principal mentor foi Salvador de Mendonça, representante do Brasil em Washington após o  término da missão especial junto à I Conferência.

7º) De acordo com o tratado – que tanta celeuma provocou em razão de certas circunstâncias não suficientemente esclarecidas durante a sua elaboração – foi contemplada uma lista enorme de produtos norte-americanos com tratamento tarifário preferencial no mercado brasileiro. Parte deles isenta – como trigo em grão e farinha de trigo – outra parte com redução de 25%. Em troca, o Brasil continuaria colocar o café isento de direitos no mercado norte-americano e, o mais importante, os açúcares seriam também objeto de favores alfandegários com os quais esperava-se competir, em melhores condições, com o açúcar antilhano e, assim, dar novo alento à produção nordestina.

8º) Com ou sem convênio, as trocas entre os dois países evoluíram, seguindo um curso inexorável. Continuou o café gozando de isenção de impostos de importação nos Estados Unidos – mesmo porque a isenção visava baratear o produto para o consumidor norte-americano – e o Brasil, em contrapartida, ao longo de quase toda Primeira República, renovou favores alfandegários às mercadorias de procedência norte-americana a cada exercício. Com tais favores, a farinha de trigo daquele país figurava como uma das principais importações do Brasil, o que, frequentemente, levava a Argentina a protestar por favores idênticos para as suas farinhas.

9º) Os Estados Unidos, a partir de 1898, exercitavam-se na política mundial, procuravam dar corpo ao seu subsistema internacional de poder e, ao mesmo tempo, buscavam ampliar sua presença comercial na América Latina. A hegemonia britânica sobre esta passou a ser desafiada pelos norte-americanos, que ainda concorreram com o emergente imperialismo alemão.

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