Rio Branco e o corolário Roosevelt

1º) A exata noção da influência dos Estados Unidos no concerto internacional levava Rio Branco a ver a Doutrina Monroe como elemento de defesa territorial do continente. “A Doutrina Monroe e o respeito misturado de temor, que pelos seus processos novos os Estados Unidos inspiram às grandes potências da Europa, têm servido para impedir, desde há muitos anos, que elas pensem em violências e conquistas no nosso continente”

2º) Com efeito, a Grã-Bretanha, ao consultar previamente os Estados Unidos, reconhecia a nova potência e sua respectiva área de influência. Não à toa, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Drago, dirigiu nota ao Departamento de Estado norte-americano afirmando o princípio de que a dívida pública não podia ser cobrada com o uso da força. Entretanto, o governo dos Estados Unidos não acolheu os termos da nota (que passaram à História como Doutrina Drago), evitando comprometer-se com a não intervenção. Manteve-se neutro e a questão foi encaminhada para a Corte de Haia.

3º) Rio Branco teve posição distinta da Argentina. Além de aceitar a posição norte-americana, não acompanhou o ministro argentino Drago, no protesto contra a cobrança coercitiva de dívidas, por entender que não estava em causa a Doutrina Monroe. Rio Branco não aceitou a formalização de um protesto conjunto e, afora o fato de não se afinar com os princípios de Drago, adotava uma posição de entendimento com os EUA.

4º) A Doutrina Monroe não podia “instruir em favor dos povos americanos o privilégio de faltar impunemente a compromissos de honra e ainda zombando dos credores”. Assim a doutrina era entendida como instrumento de defesa da integridade territorial do continente em face de agressões europeias. Não se vislumbrava qualquer perigo, caso as nações da América do Sul “aceitassem esse convênio”. Para certo setor da opinião, a doutrina prestava “grande serviço” ao continente, pois assegurava a liberdade para o “desenvolvimento de cada nação americana”, resguardando-as da cobiça e da conquista europeias.

5º) Concebida originalmente como proteção e não ingerência, a Doutrina Monroe foi transformada em justificativa para sancionar intervenções em países latino-americanos abrangidos pela amplificação da área de segurança norte-americana. Ao afirmar o afastamento da ingerência europeia no hemisfério, invocando a doutrina, o presidente Theodore Roosevelt colocou, unilateralmente, a América Latina no subsistema internacional de poder liderado pelos Estados Unidos.

6º)  A aplicação dos princípios formulados por Monroe em 1823, que vedavam o continente à conquista europeia, impunha também responsabilidades, segundo Roosevelt. Assim, os Estados Unidos tinham a tarefa de zelar pela ordem e pela paz na América por meio de uma ação de política internacional. Na mensagem de 6 de Dezembro de 1904 ao Congresso norte-americano, o presidente conciliou o monroísmo com intervencionismo ao redefinir a doutrina.

7º) O conceito de proteção do hemisfério contra agressões extracontinentais, cerne daquela doutrina, foi retrabalhado pelo então presidente norte-americano, de forma que desse justificativa à política de coerção contra os Estados latino-americanos. Como contrapartida, os Estados Unidos garantiam à Europa que as nações latinas da América, sob sua supervisão, preservariam a ordem pública e manteriam seus compromissos em dia.

8º) De acordo com essa nova versão da Doutrina Monroe, conhecida como Corolário Roosevelt, aos norte-americanos estava reservada a tarefa de dirigir os povos menos competentes.

9º) Rio Branco receava a agressividade europeia. Tal receio levava-o a valorizar o caráter da Doutrina Monroe e a entendê-la como aplicável às questões de limites entre as nações latino-americanas e as potências europeias que ainda conservavam colônias no continente americano. Além disso, Rio Branco aceitava a presença militar estrangeira em outro país em nome da defesa de interesses ameaçados. Ainda mais que não se tratava de intervenção estrangeira visando contribuir para que um partido suplantasse outro, mas sim de colaboração no sentido de se chegar a uma acordo conciliatório sem desprestígio para a autoridade legal. O chanceler via a possibilidade de as nações mais fortes desempenharem ação benéfica em favor da paz sobre nações mais fracas.

10º) Rio Branco não desaprovou os temos em que Roosevelt se auto-outorgou o poder de “política internacional”, bem como era pela demonstração de força em favor da paz. Num certo sentido, o ministro brasileiro falava a linguagem do presidente norte-americano.

11º) Rio Branco não alimentava um idealismo ingênuo quanto à natureza do pan-americanismo. Sabia que este fora reanimado por Blaine, em 1888, no próprio interesse dos Estados Unidos. Teve também, suficiente acuidade para perceber que a presença de Root no Brasil fora em benefício da influência norte-americana na América do Sul.

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