O Estado Novo: reflexos diplomáticos

1º) O advento do Estado Novo (Novembro de 1937) foi bem acolhido em Berlim e Roma, em razão da identidade ideológica de seus governos com o novo regime. Em Washington houve apreensão, num primeiro momento. Mas, contrariamente ao que poderia indicar, o Brasil, no plano externo, não assumiu atitude que eventualmente pudesse levar a um alinhamento às potências do Eixo. Tanto é assim que se recursou a integrar o pacto Anti-Komintern para não prejudicar a amizade norte-americana e em atenção à pressão interna.

2º) Apesar da suspensão do pagamento da dívida externa, decretada por Getúlio Vargas no mesmo dia do golpe, da diferença de regimes e do acordo comercial firmado com a Alemanha em 1936, as relações do Brasil com os Estados Unidos NÃO sofreram abalo.  

3º) Por discordar dos rumos que ia tomando o Estado-Novo, Osvaldo Aranha pediu demissão do posto e mostrou disposição de abandonar a política. Contudo, aderiu ao novo regime, o que significou sua nomeação, em Março de 1938, para a chefia do MRE, onde permaneceu até 1944. Aranha entrou prestigiado no governo, em razão do que pôde conduzir os negócios exteriores com mais liberdades do que poderia supor. Foi uma espécie de contrapeso em face daqueles que, no governo, eram simpatizantes das potências do Eixo. Aranha NÃO nutria simpatias pela Itália ou Alemanha e era A FAVOR do incremento das relações com os Estados Unidos. A crise diplomática havida em 1938, entre o Rio de Janeiro e Berlim, em razão, aliás, da atitude insolente do embaixador alemão no Brasil, Karl Ritter, e a missão Aranha nos EUA em 1939, contribuíram para aumentar o prestígio da diplomacia norte-americana junto ao Itamaraty.

4º) A campanha de nacionalização, a proibição da propaganda e da organização de partidos políticos provocaram estremecimento, em 1938, das relações entre o Estado Novo e  o Reich, contrariando, assim, expectativas geradas pela identidade de regimes. A simpatia de Vargas pelos regimes totalitários europeus, o aumento considerável das trocas comerciais entre Brasil e Alemanha e a aproximação dos dois países também no referente a armamentos e colaboração policial, não impediram o Estado Novo de cercar as atividades a seção brasileira do partido nazista .

5º) O partido integralista não tinha relações palpáveis com o partido nazista do Brasil. Apesar da ação do governo alemão junto aos brasileiros de origem alemã do sul do Brasil, as relações comerciais entre o país e a Alemanha não sofreram alterações (A Alemanha continuou a ocupar posição importante no comércio exterior brasileiro, principalmente do algodão)

6º) Com a Itália as relações foram mais cordiais. Logo após o golpe de 1937 e configurada a AIB como perdedora, o governo de Roma aproximou-se do Estado Novo, cessando suas subvenções à AIB e com ela mantendo apenas contatos informais. Antes dessa atitude, Roma desenvolvera uma diplomacia paralela no Brasil: com o governo e com a AIB.

7º) A PRINCIPAL preocupação dos Estados Unidos em relação ao Brasil, após o advento do Estado Novo, foi evitar que ele ficasse na órbita da influência alemã. Daí a facilidade das relações entre os dois países, não obstante as diferenças de regime. O rompimento de Vargas com a AIB e a colocação desta na ilegalidade em 1937, afora outras considerações, contribuíram para tranquilizar o governo norte-americano. As relações do Brasil com os Estados Unidos melhoraram ainda mais, não só em razão da presença de Osvaldo Aranha, mas também por causa da crise nas relações com a Alemanha.

A questão de Letícia e mediação brasileira do Chaco

A QUESTÃO DE LETÍCIA

1º) Peru e Colômbia tinham questões de fronteira desde a época da Independência. Em  razão do Tratado Salomón-Lozarno firmado em 1922, pelas duas nações, o território de Letícia ficou incorporado à Colômbia. O Tratado preocupou o Brasil pelo fato de os territórios a leste da linha Apapóris-Tabatinga, já reconhecidos como brasileiros pelo Peru, poderem vira a ser reivindicados pela Colômbia, uma vez que esta ficou com a posse das terras, até então peruanas, a oeste da referida linha. Foi assinada em 1932 a Ata de Washington garantindo reconhecimento das fronteiras por parte dos três países e a livre navegação pelo amazonas por parte do Brasil. A situação da região se deteriorou com a invasão da população peruana no agora território colombiano de Letícia. A questão só foi resolvida com a intervenção da Liga das Nações e a formação de um comitê para tratar da negociação e mediação do conflito.

A MEDIAÇÃO BRASILEIRA NO CHACO

1º) A questão do Chaco remonta o século 19 e tem sua origem no fechamento do Rio Paraguai à Bolívia, decorrente do Tratado de Navegação e Comércio assinado entre Argentina e Paraguai em 1858

2º) A disputa entre os dois países mediterrâneos pela posse do território objeto de litígio passou por várias fases e chegou no século 20. Na década de 1930, a questão se exacerbou, sobretudo em razão da perspectiva de exploração de petróleo na área. O primeiro choque entre Paraguai e Bolívia ocorreu no final de 1928 e o Brasil procurou manter-se neutro. A chancelaria brasileira argumenta que a não participação na Comissão de Investigação e Conciliação, montada para resolver a questão, foi para que o Brasil não fosse arguido injustamente que fosse, de ter qualquer interesse direto ou indireto e pelo fato de o país já ter tratado de limites tanto com Bolívia e com o Paraguai. A diplomacia brasileira evitava “situações de relevo”, a fim de não ferir suscetibilidades e não participação na citada comissão decorria da sua intenção de reforçar a posição de neutralidade.

3º) Após árduos trabalhos de conciliação das nações sul-americanas, em especial Brasil e Argentina com Macedo Soares e Saavedra Lamas, foi assinado em 1935 tratado de paz entre as duas nações.

O Brasil e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

1º) Iniciada a guerra na Europa, o governo brasileiro adotou completa neutralidade.

2º) No período que antecedeu à ruptura de relações com o Império alemão e posterior declaração do estado de guerra, ocorreu intenso debate interno. Havia os germanófilos – como Monteiro Lobato e Lima Barreto -, pró-aliados, estes em maioria – como Rui Barbosa e Olavo Bilac -, e aqueles que não se inclinavam por nenhum dos lados. Não escapou aos observadores brasileiros o caráter econômico do conflito. O momento foi, aliás, rico em análises sobre o Brasil e suas relações com o exterior. O imperialismo e o transcorrer da crise política na Rússia eram temas também presentes nos escritos.

3º) A razão imediata da entrada na guerra foi a ação dos submarinos alemães contra navios mercantes brasileiros. A ruptura de relações com o Império Alemão ocorreu após o torpedeamento, sem aviso prévio, do paquete brasileiro Paraná. A ruptura ocorreu em 11 de Abril de 1917.

4º) Em 31 de Janeiro de 1917, o governo imperial alemão notificou o governo do Brasil, por meio de seu representante em Berlim, do bloqueio naval da Grã-Bretanha, França, Itália e Mediterrâneo Oriental, e que atuaria sem restrições ou aviso prévio. O governo brasileiro só teve o conhecimento oficial em 3 de Fevereiro de 1917, por meio de telegrama da legação em Haia, que retransmitiu o telegrama de Berlim.

5º) Depois do torpedeamento de dois navios mercantes por submarinos alemães, o presidente pediu ao Congresso Nacional autorização para tomar medidas de represália. O Legislativo, em consequência, votou severa Lei de Guerra, pela qual se autorizava o governo, até 31 de Dezembro, a declarar estado de sítio nas partes do território da União onde fosse necessário.

A PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA

6º) Em Dezembro de 1917, o governo brasileiro comunicou ao da Grã-Bretanha a decisão de dar “expressão prática” à sua colaboração com os aliados. Uma vez aceita, o Brasil enviou 13 oficiais aviadores que, depois de treinados, fizeram parte da Força Aérea Britânica, uma missão de 100 médicos-cirurgiões à França; um grupo de estudantes e solados do Exército para dar guarda ao Hospital do Brasil. Isso contribuiu para o Brasil angariar simpatias nas negociações de paz. A missão médica na França seria extinta em Fevereiro de 1919.

7º) A contribuição mais expressiva porém, foi, a formação da Divisão Naval em Operações de Guerra, inicialmente composta por cruzadores e torpedeiros. Depois de escalas no Nordeste e em Fernando de Noronha, em Julho de 1918 seguiu para a costa africana, onde deveria atuar incorporada à força naval inglesa.

8º) A entrada do Brasil no conflito deu-se não muito tempo depois que os Estados Unidos nele se engajaram. A solidariedade hemisférica foi até oficialmente invocada pelo governo brasileiro. Já foi afirmado que o posicionamento brasileiro interessava aos Estados Unidos, pois influenciaria a posição dos demais países latino-americanos.

9º) Perto do fim do conflito, a Itália e a Grã-Bretanha fizeram ao Brasil propostas de cooperação aérea e naval que transcendiam a colaboração brasileira no conflito. Em Agosto de 1918, a legação da Itália informou ao governo brasileiro que estava em via de constituição, no Brasil, uma combinação ítalo-brasileira para a exploração das comunicações aéreas, e pediu apoio à sua realização.

REFLEXOS NO COMÉRCIO EXTERIOR

10º) Dentre as dificuldades criadas pela guerra, ressaltavam a guerra submarina e a Statutory List criada pela Inglaterra em 1915. Tal lista afetava as atividades das casas comerciais estabelecidas no Brasil. A guerra no mares levou as companhias nacionais a interromperem as viagens pela Europa. A exportação de café teve ainda uma dificuldade específica, pois o produto foi declarado contrabando de guerra pela Grã-Bretanha e, consequentemente, teve sua entrada proibida naquele país pelo fato de não ter sido, juntamente com outros produtos, inclusive oriundos de suas colônias, considerado gênero de primeira necessidade.

11º) Em decorrência da Primeira Guerra Mundial, ou mais precisamente do fim da neutralidade brasileira em favor dos Estados Unidos e potências aliadas, houve um aumento do intercâmbio comercial Brasil-Estados Unidos e, ao mesmo tempo acentuou-se ainda mais depois do conflito, até porque Nova York assumiu a posição que até então era ocupada por Londres nas finanças internacionais.

12º) Durante a Primeira Guerra e imediatamente após seu término, o saldo da balança comercial brasileira foi favorável. Ao mesmo tempo que o país importava menos, em razão da desorganização da produção europeia, aumentaram suas exportações, inclusive de produtos até então pouco expressivos nas vendas para exterior, como cereais, banha e carnes congeladas.

13º) No período que coincide com a Primeira Guera, o Brasil não teve problemas na sua balança comercial, já que os saldos foram favoráveis. O mesmo não ocorreu no quadriênio seguinte. O mandato de Epitácio Pessoa corresponde ao imediato pós-guerra. A retomada das atividades econômicas na Europa repercutiu em déficit na balança de comércio e consequente queda do câmbio. Junto com esses dois fatores negativos, o governo teve de lançar mão de empréstimos, um deles para acorrer à valorização do café. Esses fatores, acrescidos pelo quadro mundial difícil – nele incluída a retração dos capitais externos – dão ideia da magnitude dos problemas econômicos nacionais. Foi nesse período que teve início a contestação da política da Primeira República, em 1922

O contexto sul-americano

1º) Rio Branco não só procurava a captar a simpatia das nações do Prata, vale dizer Paraguai e Uruguai, como também aproximar-se do Chile, a fim de conter a Argentina e sua eventual capacidade de influenciar aqueles países que mantinham pendências com o Brasil. Fazia parte do seu estilo neutralizar forças: A estreita amizade entre o Brasil e o Chile tem servido para conter suas velocidades (dos argentinos) de intervenção franca no litígio chileno-peruano, no que tivemos com a Bolívia e no que ainda temos pendente com o Peru.

2º) Convencido das prevenções das nações hispano-americanas em relação ao Brasil, Rio branco sempre que tinha oportunidade procurava desmanchar suspeitas das nações vizinhas. Dentro dessa linha, pode ser vista a aproximação das três maiores nações sul-americanas (Argentina, Brasil e Chile), buscada por Rio Branco desde os primeiros anos de sua gestão no MRE. A aspiração chegou a ser consubstanciada em um projeto cordial inteligente, geralmente conhecido como ABC, que, aliás, não foi concretizado no período em que Rio Branco ocupou a pasta.

3º) Convém observar que a aproximação observar que a aproximação Argentina-Brasil-Chile, nos termos em que Rio Branco concebia, não significava um contrapeso à influência norte-americana. O ABC seria para atuar de acordo com o governo de Washington, numa espécie de condomínio oligárquico de nações. Nações pequenas temiam o poder desta aliança, como por exemplo o Peru, que tinha pendencias na região de Tacna e Arica com o Chile e de fronteira com o Brasil.

Rio Branco: prestígio, soberania e definição do território (1902-1912)

1º) As grandes linhas da política externa do patrono da diplomacia brasileira foram:

  • A busca de uma supremacia compartilhada na área sul-americana
  • Restauração do prestígio internacional do país
  • Intangibilidade de sua soberania
  • Defesa da agro-exportação
  • Solução de problemas lindeiros

2º) As relações internacionais adquiriram, então, escala mundial. Foi nesta conjuntura que Rio Branco, em continuidade com o que fora inaugurado pela República, desenvolveu uma política que tinha como um dos seus principais componentes a íntima aproximação aos Estados Unidos. Tal aproximação NÃO significou “alinhamento automático” e serviu aos propósitos políticos do chanceler no plano sub-regional (América do Sul). Embora a amizade brasileiro norte-americana remonte ao período colonial, a gestão de Rio Branco representou um marco.

3º) O estreitamento das relações com os Estados Unidos atendia aos interesses das oligarquias dominantes do sistema político brasileiro. O Brasil, na periferia do sistema capitalista e exportador de produtos tropicais, de acordo com a divisão internacional do trabalho estabelecida em fins do século 19, tinha naquele país seu mais importante mercado consumidor. Em contrapartida, a amizade do Brasil convinha aos Estados Unidos pela sua posição estratégica já que a Argentina mantinha estreitos vínculos com a Grã-Bretanha e repelia a aproximação norte-americana, pelo potencial de seu marcado e possibilidade de investimentos.

4º) É preciso advertir que, no período em tela, o Ministério das Relações Exteriores teve, na prática, autonomia de ação, decorrente do prestígio de seu titular. Desse modo, que a condução da política externa brasileira deve ser atribuída quase que unicamente à ação do barão do Rio Branco, que, desde sua posse, desfrutou de um lugar à parte no Poder Executivo. A continuidade da política externa independeu das mudanças presidenciais. O barão integrou os ministérios de Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca.

Um balanço dos resultados

1º) Que significaram os 25 anos da presença brasileira efetiva no Prata, entre 1851 e 1876? Na ótica do sistema internacional, estabeleceu-se uma hegemonia periférica, porquanto a presença brasileira se concretizou pela substituição das potências anteriormente dominantes, e sua ação preencheu os requisitos do conceito:

  • Comandou, pela via diplomática, um sistema de acordos e alianças favoráveis aos desígnios da vontade nacional
  • Usou da força para dobrar a vontade dos Estados platinos, quando o requeriam as circunstâncias
  • Submeteu os mesmos Estados à dependência financeira, por meio de empréstimos e dívidas públicas
  • Abriu-os à penetração econômica privada e garantiu o fornecimento de matérias-primas indispensáveis à manutenção de seu sistema produtivo
  • Obstou ao aparecimento de uma hegemonia concorrente no período

2º) O exercício da hegemonia brasileira revestiu-se em grau moderado do caráter imperialista, na medida em que:

  • A ostentação ou o emprego da força amparavam os objetivos econômicos e geopolíticos
  • A presença brasileira contribuiu para a expansão do capitalismo, promovendo a liberalização das instituições e das relações de produção

A dominação foi mais acentuada sobre os dois Estados menores, Uruguai e Paraguai, contemplados, respectivamente, com as diktats de 1851 e 1872, obtendo a Argentina parcial satisfação nos acordos de 1876

3º) Marchava o Brasil com vontade e objetivos próprios, confrontando-se comas potências capitalistas que competiam na área. Do ponto de vista econômico, as repercussões internas da aventura platina foram muito negativas:

  • Os custos, ainda não quantificados com precisão, desviaram da modernização interna um enorme volume de capital. 
  • A alternativa racional apontaria para seu aproveitamento no projeto de 1844, oque sem dúvida teria salvaguardado a segurança do lado do Prata, pela simples construção da potência econômica.
  • Os empréstimos concedidos ao Uruguai não foram ressarcidos, e as dívidas de guerra do Paraguai, tanto públicas quanto privadas, jamais foram liquidadas.

4º) Enfim, os empreendimentos de Mauá foram à bancarrota no Prata, provocando sua falências no Brasil. O charque platino tinha mercado cativo nas regiões escravistas do Brasil e de Cuba, sendo dispensável o emprego de métodos imperialistas para obtê-lo. No Parlamento brasileiro, a política platina era objeto de controvérsias permanentes, o que contribuiu para o fortalecimento das instituições que jamais estiveram ameaçadas por um perigo qualquer advindo do Sul.

5º) Foram contradições internas que levaram ao declínio da Monarquia, nelas se compreendendo a própria questão militar de 1868 e a determinação de conduzir a guerra no Paraguai ao extremo, por uma “questão de honra”.  De modo geral, os partidos se compunham em termos de política externa, apoiando em princípio o governo em nome do superior interesse nacional, sem abdicar do direito à crítica, permanentemente exercido. A controvérsia estabelecia-se a nível pessoal.

6º) Situava-se, num extremo, a doutrina da não intervenção, que se opunha com veemência à política platina em vigor, fundando-se na teoria do ciclo da violência (intervenção-hostilidade-reação-intervenção). No outro extremo, raciocinavam e se firmavam os intervencionistas radicais, com base na doutrina europeia da “segurança imediata e interesses essenciais. ”

7º) O centro do pensamento político brasileiro aplicado às relações externas girava em torno de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, que aglutinava a maioria dos homens públicos em favor da “neutralidade limitada”, uma formulação política moderada e enérgica ao mesmo tempo, sensível ao conceito de soberania e mais ainda ao do interesse nacional a defender. Correspondeu essa corrente à sustentação ideológica da política externa no período.

8º) No Prata, a ação brasileira teve seus paradoxos. Voltada, em princípio, segundo o catecismo conservador que prevaleceu, ao fortalecimento dos pequenos Estados, acabou não resolvendo as contradições internas no Uruguai, perturbando seu sistema produtivo e arrasando a potência paraguaia, o aliado natural. Por outro lado, se impôs enfim a vontade brasileira na conclusão da guerra com o Paraguai, contribuiu ironicamente para fortalecer a Confederação e, depois, para o advento da República Argentina, única potência rival em seus cálculos estratégicos, e ainda deixou pendentes o tratado definitivo de paz relativo à convenção de 1828 sobre o Uruguai e a grave questão dos limites. Embora tenha mantido o mapa político regional, o Brasil teria no futuro que se relacionar com uma nova República Argentina, Estado consolidado, em condições de articular as forças produtivas internas e de competir externamente.

9º) Duas vertentes originam-se das análises recentes que privilegiam o papel dos Estados. A radical, hobbesiana, parte do pressupostos segundo o qual cada Estado tinha por objetivo em sua ação externa o enfraquecimento, senão mesmo a destruição dos outros Estados, e concebe as relações internacionais em situação de guerra permanente e universal, como se relegadas fossem ao domínio do irracional.

Da hesitação à intervenção

1º)  Entre o malogro da composição com Rosas, em 1843, e a intervenção no início da década seguinte, a política platina do brasil atravessou um período de transição marcado  por indefinições táticas e estratégicas, pela consideração das alternativas incompatíveis e pela falta de clareza no estabelecimento de metas concretas. Manteve-se a neutralidade efetiva, não como opção política consciente, mas, ao contrário, em função de sua ausência.

2º) As alternativas abaixo permitem concluir que  até a intervenção não existia uma política brasileira para o Uruguai e o Paraguai. No Prata, tudo se definia em função de Rosas, de suas iniciativas ou reações presumíveis. Quatro alternativas entravam em linha de conta, nos meios políticos brasileiros, sem que por uma ou pela combinação de várias se orientasse decisivamente a política:

  • A reaproximação com Rosas
  • Marchar contra ele, por meio da aliança paraguaia
  • Marchar contra ele, juntamente com França e Inglaterra
  • Confrontá-lo diretamente, com ou sem alianças de terceiros

3º) Alguns complicadores vinham semear sobre as condições objetivas outras elementos de confusão:

  • Havia nos meios políticos brasileiros quem simpatizava com o caudilho rio-platense e quem o detestava, percebendo-se a mesma divisão no próprio corpo diplomático, embora prevalecessem aí seus desafetos
  • Como não se definia o governo central por uma política invariável e firme, as duas grandes províncias sulistas, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, faziam sua pequena política externa regional, agindo em função de interesses locais, com relativa desenvoltura
  • O poder efetivo de Rosas ou sua imagem induziam internamente a política do medo, que bloqueava ou interrompia iniciativas marginais e impedia ainda uma ação direta
  • No Parlamento, onde se debatiam publicamente as questões platinas e a política brasileira, prevalecia até 1847 a corrente tradicional do pensamento neutralista
  • Junto à corte, os representantes de Montevidéu e Buenos Aires, Lamas e Guido, solicitavam insistentemente o governo para política contrárias

4º) Hesitava, pois, a diplomacia brasileira e como resultado dessa hesitação ainda recolhia mágoas impertinentes:

  • Rosas e seus agentes assimilavam a neutralidade brasileira à covardia
  • França e Inglaterra desdenhavam a ideia de ação conjunta
  • O Paraguai de Carlos Lopez se decepcionava, assim como Montevidéu, os gaúchos e os mato grossenses.

5º) Uma situação insustentável a longo prazo que em dado momento, demandaria entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires o entendimento ou o confronto. Era então condição, da parte brasileira, para um possível entendimento duradouro com Rosas a satisfação das seguintes exigências

  • Obtenção do tratado definitivo de paz, decorrente da convenção de 1828, para garantia da independência do Uruguai
  • Reconhecimento da independência do Paraguai
  • Liberdade de navegação
  • Neutralização da ilha de Martín García, que dominava o estuário
  • Reconhecimento dos limites sulinos, conforme o uti possidetis da época da independência
  • Estabelecimento do comércio regular regional
  • Aproveitamento das pastagens uruguaias para o abastecimento do charque, cuja demanda interna crescia com a importação de escravos

6º) A viabilidade de relações estabelecidas nessas bases dependia do abandono das prevenções mútuas, da ação conjunta bilateral e, sem dúvida, do sacrifício de pretensões hegemônicas argentinas em favor das brasileiras. Uma viabilidade assim posta era, literalmente, inviável, como os fatos vieram a demonstrar.

7º) A política platina brasileira comportou três curtas fases no periodo:

  • O desejo de mudança e as iniciativas de 1844
  • O recuo desde a intervenção franco-britânica em 1845 até a derrota e a retirada daqueles europeus, em 1849-1850
  • A decisão de solucionar os problemas pela força e as operações levadas a termo em 1851 e 1852.

8º) Carneiro Leão, condutor da composição com Rosas, em 1843, cogitava, desde seu malogro, abandonar as perspectivas de marchar conjuntamente com aquele governo nas questões platinas. Tanto é que a reintegração do Rio Grande do sul, segregado do Império desde 1835, seria feita por ação exclusivamente interna, concluída em 1845. Foi, entretanto, seu sucessor no MNE, Paulino Soares de Sousa, que recuperou a tradição bilateral autônoma de Correa da Câmara, nas relações com o Paraguai. A nova política de cooperação com os Estados do Prata e com a América hispânica para contra-arrestar Rosas, seria, entretanto, efêmera e sem consequência. O Gabinete que substituiu Paulino, em fevereiro de 1844, mudou novamente a política, enviando Abrantes à Europa e negando ratificação ao tratado paraguaio.

9º) Em vez de implementar a articulação paraguaia, em função de interesses comuns, desviava-se o governo brasileiro para a Europa, consultando Guizot e Aberdeen sobre as possibilidades de intervenção conjunta, em função também de interesses comuns no Prata. Mas, assim como a inépcia brasileira desiludira perigosamente o governo paraguaio, a arrogância inglesa humilhará o governo brasileiro, ao pretender Aberdeen subordinar a cooperação à obtenção de grandes concessões. A intervenção franco-britânica seguiu-se em 1845, não em razão de alguma influência brasileira. Ingleses e franceses foram finalmente derrotados por Rosas, que lhes ofereceu resistência, retirando-se em 1849-1850, deixando o Prata tal qual o haviam encontrado.

10º) A intervenção contra Oribe e Rosas, decidida por Paulino, após a retirada europeia do Prata, correspondeu a uma política nacional autônoma, cuidadosamente planejada:

11º) Na avaliação brasileira, Rosas saíra tão fortalecido com os europeus que não hesitaria em levar adiante seu expansionismo regional. O Uruguai estava sob seu controle com Oribe, para desespero dos gaúchos, que praticavam incursões violentas à busca de gado. Paraguai e Bolívia seriam suas próximas presas e, talvez, o Rio Grande do Sul. Restabelecer-se-ia assim o Vice-Reino da Prata, sob a forma de grande Estado rival. Correta ou não, essa avaliação brasileira era o principal elemento de cálculo político. Convinha, pois, atacá-lo primeiro, em ação direta, “agredir para não ser agredido”, pensava Paulino.

12º) Uma condição prévia para o êxito da operação era a eliminação do estado de quase-guerra entre o Brasil e a Inglaterra por causa do tráfico de escravos. O ministro de Estrangeiros decidiu a aprovação da lei de extinção, em julho de 1850, por meio de brilhante exposição ante o Parlamento. Além dos motivos próprios, a extinção estava vinculada a sua política platina, como uma decisão útil.

13º) Outro obstáculo a vencer era o apoio do governo inglês a Rosas. Seu representante em Buenos Aires, Southern, havia solicitado a Palmerston uma intervenção preventiva contra o Brasil, já que agora a ordem que o governador impunha à região convinha aos negócios ingleses. Dom Pedro acionou então a diplomacia familiar, obtendo por meio de pressões do rei dos belgas sobre a rainha Vitória e deste sobre o chefe do governo que Palmerston transitasse do apoio a Rosas e da hostilidade contra o Brasil à neutralidade e ao reconhecimento do direito brasileiro de intervir. O resultado dessa ação desnorteou Southern e Rosas.

14º) Paulino rompeu com o governo de Buenos Aires, entregando a seu representante os passaportes, como solicitara.

15º) Obteve do Senado autorização para nomear o senador Conde de Caxias como presidente da província do Rio Grande do sul. Com essa tática, desencadeou o debate público e alcançou o apoio dos meios políticos à campanha platina. Seu homem de confiança seria colocado no comando das tropas, enquanto a Marinha era confiada ao experiente Grenfell.

16º) Paulino aceitou a oferta do barão de Mauá, que se dispôs a sustentar financeiramente a praça de Montevidéu contra Oribe, após retirada dos franceses em 1850.

17º) Enviou representantes ao Pacífico para contra-arrestar Rosas, e ao Prata para concluir alianças contra Rosas, obtendo-as de Carlos Antonio Lopez e, depois, dos governos de Montevidéu, Corrientes e Entre-Rios, com a finalidade de eliminar Oribe num primeiro tempo e trazer Rosas à guerra para voltar esta aliança contra ele, num segundo tempo.

18º) A estratégia de guerra foi armada da melhor forma, envolvendo a diplomacia, as alianças e a colaboração de homens fortes. A batalha de Monte Caseros foi grandiosa pelo número de homens engajados e pelo seu significado histórico: a derrota de Rosas e sua retirada para a Inglaterra, a derrota de uma política inglesas para o Prata e a ascensão do Brasil como nova potência regional, temporariamente hegemônica.