As relações com o Norte na década de 80: Europa e Japão

1º) Nos anos 1980, as relações com a Europa Ocidental caracterizaram-se por algumas dificuldades na área econômica, convergência na área política, manutenção da cooperação tradicional e ampliação de esquemas

2º) Os países industrializados, em defesa de seus sistemas produtivos e mercados, forjaram o conceito de Newly Industrialized Countries, com que restringiram o Sistema Geral de Preferências negociado no seio do GATT. O Brasil foi “graduado“, e em 1981 perdia preferências comerciais na CEE e nos Estados Unidos. A Comunidade apresentava, aliás, de tempos em tempos, suas reclamações contra o protecionismo draconiano do mercado brasileiro para os produtos industriais, como os subsídios às exportações, e movia processos anti-dumping.

3º) O Brasil devolvia as críticas, alegando procedimentos similares praticados pela CEE contra as importações de manufaturados brasileiros, e sobretudo discordava da política agrícola da Comunidade, que mantinha preços elevados pelo subsídio, prejudicando a entrada de produtos brasileiros e a negociação de acordos sobre preços dessas matérias-primas.

4º) A adesão de Portugal e Espanha à Comunidade, em 1986, agravou ainda mais as condições do intercâmbio econômico. Embora seus chefes de Estado, em visitas ao Brasil, tenham instado o governo e a sociedade para que transferissem capitais e tecnologia àqueles países, criando empresas mistas, com que penetrassem o Mercado Comum indiretamente, não houve em escala apreciável.

5º) O Brasil teve prejuízos com a ampliação da Comunidade, cujos novos membros estenderam a convenção de Lomé, que regula as preferências especiais do integrantes, afetando as exportações brasileiras de produtos manufaturados e agrícolas. Em contrapartida, a CEE manifestou interesse de estreitar os laços de cooperação com a América Latina, negociando com o Brasil no quadro de acordos vigentes, da comissão mista e dos órgãos multilaterais apropriados, tanto o intercâmbio comercial quanto iniciativas específicas de cooperação, particularmente no setor de telecomunicações e de pequenas empresas..

6º) A cooperação bilateral com os países da Europa Ocidental manteve seu ritmo ascendente, reforçado por veículos políticos resultantes de intenso e profícuo intercâmbio de visitas de chefes de Estado e altas autoridades, sonegado apenas pela Itália. O número de acordos de cooperação cresceu de forma que atendesse a uma expansão vertical que incluía novos setores de atividades, e horizontal atingindo sobretudo os pequenos países da periferia.

7º) O Acordo Nuclear alemão de 1975, que previa para 1990 a instalação de oito usinas nucleares, enfrentou obstáculos que comprometeram as metas e as intenções originais. Desde 1979, havia-se ressuscitado no Brasil a tese hidrelétrica, ante os elevados custos comparativos da energia nuclear. A crise dos anos 80 e a recessão acabaram por sepultar o grandioso projeto, tocado em ritmo muito lento.

8º) As relações econômicas com a área socialista foram reforçadas por uma série de novos acordos de cooperação, mais ainda não haveriam encontrado o nível correspondente às potencialidades recíprocas. Por outro lado, o entendimento político consolidou-se, destacando-se os resultados da primeira troca de visitas entre os ministros das Relações Exteriores do Brasil e da União Soviética e da primeira visita do chefe de Estado brasileiro àquele país. O Brasil manifestou-se pela retirada das tropas soviéticas no Afeganistão, assim como condenava a intervenção israelense nos países árabes, sul-africana em Angola, Moçambique e Namíbia, norte-americana em Granada e na América Central, argentina nas Malvinas.

9º) O Japão, maior parceiro asiático, intensificou os vínculos com o Brasil, do ponto de vista comercial, econômico, político e cultural. A balança comercial, que lhe era muito favorável na década de 70, equilibrou-se nos anos 80, para pender a favor do Brasil. As relações culturais e políticas, até mesmo afetivas, registraram maior densidade em 1988, quando se comemorou o octogésimo aniversário da imigração japonesa para o Brasil

As relações com o Norte: (O BRASIL E O JAPÃO)

1º) Entre 1967 e 1979, o comércio bilateral passou de 106 milhões para 2 bilhões de dólares e, em proporção quase paralela, incrementaram-se relações entre os dois países em outras áreas de cooperação.

2º) Em 1967 foi criada a Comissão Mista Bilateral, que se reuniu pela primeira vez em 1968 e pela segunda em maio de 1969: foi o instrumento originado destinado ao incremento do comércio e da cooperação. 

3º) As metas brasileiras eram a captação de recursos, equipamentos e tecnologias para aclarar o desenvolvimento, como também aumentar o volume de vendas ao Japão, cujo comércio com o Brasil era altamente superavitário.

As condições de movimento no sistema internacional (1967-1989)

1º) Desde Costa e Silva, os governos mantiveram no Brasil, com senso de oportunidade, o propósito de utilizar o setor externo para auxiliar o crescimento econômico. A realização desse objetivo estava, todavia, condicionada às mudanças do sistema internacional, aos obstáculos e possibilidades oferecidas.

2º) O controle da ordem pelas duas superpotências foi afetado com os progressos da detente e a diversificação dos loci de poder: Estados Unidos, União Soviética, Comunidade Europeia, Japão, China, OPEP, diante dos povos em via de desenvolvimento. Trata-se do chamado policentrismo. 

3º) No período em tela, a política externa dos Estados Unidos passou por três fases:

  • A diplomacia do equilíbrio. Correspondeu à primeira grande mutação da política externa norte-americana desde 1947, conduzida por Henry Kissinger, cuja ascensão ocorreu em 1969. Kissinger acreditava que a paz resultaria de um sistema de equilíbrio, que se dispôs a construir, em substituição à bipolaridade. Seu desígnio era de trazer as cinco grandes potências (EUA, URSS, CEE, Japão e China) a um código comum de comportamento internacional, a reger o moderno jogo de equilíbrio. O apogeu de seu sistema coincidiu com as decisões do encontro Nixon-Brejnev de 1973. Entrou depois em teste e já estava superado em 1976, porque as potencias não se dispunham a assumir responsabilidades coletivas, a abdicar de suas ideologias e políticas nacionais para manter o status quo internacional
  • O Trilateralismo. Reagindo ao modelo anterior, as elites norte-americanas associaram-se a europeus ocidentais e japoneses, e criaram a Comissão Trilateral (1973), com o intuito de influir sobre as políticas nacionais e a ordem internacional, sob a ótica de interesses do mundo capitalista. Entre as pautas da comissão estava a campanha internacional pelos direitos humanos. As relações Norte-Sul, objeto de excelentes estudos, deveriam receber maior cuidado por parte dos Estados Unidos, fosse mesmo para amenizar as rivalidades políticas e os atritos de interesses econômicos e cooptar o Terceiro Mundo ao planejamento trilateral. O modelo carteriano, embora tenha induzido as reuniões de cúpula, cederia por sua vez, com o advento de Ronald Reagan.
  • A recuperação dos Estados Unidos. As fases anteriores eram tentativas de adaptação da política externa dos Estados Unidos ao declínio de seu poder no sistema internacional. Ronald Reagan (1980-1988) veio para restabelecê-lo nos moldes da hegemonia engendrada pela ordem internacional do imediato pós-guerra. Ao abrigo do SALT-I  (1982), a União Soviética avançou, alcançando os Estados Unidos em forma militar, enquanto os aliados (Europa Ocidental e Japão) se negavam a uma colaboração efetiva nas questões de segurança, preferindo os investimentos produtivos, com que elevaram sua capacidade de competição internacional. No início dos anos 80, os Estados Unidos eram mais vulneráveis do ponto de vista militar e econômico, situação com a qual não se conformou o novo governo, disposto a repor o sistema internacional na ordem tradicional.

4º) A União Soviética oscilou entre duas tendências contraditórias, chamadas a fixar sua política externa: o desenvolvimento da luta social transnacional e a coabitação dos Estados, pelo modo da coexistência pacífica. Desde Kruschev, irá prevalecer a segunda via, substituindo-se a dominação direta pela influência e mantendo-se o armamentismo com função “pedagógica” e de garantia para o mundo socialista. Desde 1973, pelo menos, a política externa da União Soviética tornou-se mais complexa e diversa, contribuindo de modo global para a mudança do sistema internacional, favorável à manutenção da paz e ao desenvolvimento da cooperação construtiva, apesar do conluio com os Estados Unidos nos desígnios de congelamento do poder mundial e das sucessivas intervenções preventivas.

5º) Após a ruptura com Moscou, nos anos 60, uma diplomacia hesitante passou a incitar à revolução as nações pobres. Apelando à “teoria dos três mundos“, exposta por Deng Xiaoping na ONU, em 1974, o governo chinês concitava os países da periferia (Ásia, África e América Latina) a se associaram às nações desenvolvidas intermediárias (Europa e Japão) para erradicar as formas de hegemonia, exploração e pilhagem a que eram todos sujeitos pela dominação das duas superpotências, num esforço de conflito libertador em escala planetária..

6º) Em 1979, Xiaoping abandonou os desígnios dessa coalizão em favor de uma aliança anti-soviética, reunindo China, Japão, Europa e Estados Unidos. Nixon foi a Pequim, e Moscou passou a encarar com seriedade a aliança sino-americana. A passagem da “teoria dos três mundos” para a “frente unida contra o social-imperialismo” foi interpretada como reflexo de outra evolução: o do desejo chinês de dominar o Terceiro Mundo para o de tornar-se a terceira potência hegemônica.

7º) A política externa chinesa entrou em ritmo de normalização e realismo, a partir de 1982, com o fim da Revolução Cultura. Tornou-se mais complexa e universalista, admitindo a aproximação com a URSS, buscando contatos com o Ocidente para obter elementos de modernização e abandonando o fogo revolucionário nas relações com o Terceiro Mundo. Algo semelhante à correção de rumos de 1967 na política exterior do Brasil.

8º) Desde 1957 o modelo de política externa japonesa que fundou a segurança nacional sobre a cooperação internacional e a independência econômica, ampliando as possibilidades de desamericanização, a partir de 1969. Sem obstáculos ao entendimento com os Estados Unidos, e aos laços com o Ocidente, o Japão decidiu renunciar ao poder nuclear e prover-se ao mesmo tempo de meios internos de defesa, abrir-se ao universo e privilegiar as relações regionais, abdicar do imperialismo anterior sem moldar-se a hegemonias, voltar-se para a construção da potência econômica com seus planos quinquenais.

9º) De forma similar, a Europa Ocidental voltou-se para si mesma, ocupando-se com a organização de sua unidade jurídica e econômica, falando de uma só voz e quase muda em termos de política internacional, já que as relações econômicas foram em grande parte subtraídas ao controle soberano dos Estados, para situarem-se no âmbito da Comunidade.

10º) Os problemas do subdesenvolvimento NÃO figuraram nas formulações políticas dos grandes, a não ser de forma subsidiária a suas concepções, como nos casos dos estudos desenvolvidos pelas elites orgânicas e da “teoria dos três mundos” . A frente dos povos em vias de desenvolvimento irrompeu de forma espontânea e com força própria sobre o cenário internacional, provocando, com o diálogo Norte e Sul, a maior inovação em termos de conflito em tempos de paz, ao introduzir por conta e risco metas do desenvolvimento.

11º) A frente dos povos atrasados emergiu na década de 60, após as independências das ex-colônias, embora tenha sido percebida nos anos 50 por algumas manifestações pioneiras como a Conferência de Bandung (1955) e o Movimento dos Não Alinhados. Manteve-se coesa e constante nos propósitos globais durante as décadas de 60, 70 e 80, numa demonstração de racionalidade e bom senso político a causar inveja nos cultos países do Norte. Elegeu, como meios de ação, o consenso a ser estabelecido no sistema internacional, por meio da negociação permanente, que se instituiu nos foros da ONU e em organismos especializados, de caráter mundial e regional.

12º) Concentram-se os povos atrasados num objetivo-síntese, que se identificou com a luta travada na arena mundial pela implantação de uma Nova Ordem Econômica Internacional, destinada à superação da injustiça e da desigualdade. Pretendia-se, inicialmente, tornar igualitário o sistema de trocas internacionais, mas a esse fator essencial foram-se agregando novas exigências, como o controle sobre os recursos naturais pelos Estados, a forma das regras que presidiam às finanças internacionais e o controle da própria solidariedade do Terceiro Mundo, que evoluiu para uma “autonomia relativa” (Grupo dos 77), em cujo seio desenvolvia-se a cooperação a associação, a integração, notadamente Sul-Sul e regional (caso bem-sucedido da OPEP)

13º) De concreto, apenas três vitórias foram alcançadas, correspondendo ao único “desvio” das regras do comércio internacional consentido pelo Norte:

  • A implantação do Sistema Geral de Preferências, nos anos 60
  • Um acordo sobre financiamento de produtos de base e o acréscimo da Parte IV ao estatuto do GATT, permitindo aos povos atrasados proteger industrias incipientes.
  • A institucionalização da UNCTAD, criação da UNIDO, e o estabelecimento, junto ao FMI, de um comitê voltado para os problemas do desenvolvimento

14º) A política dos países do Terceiro Mundo esbarrou na falta de vontade política dos países do Norte e sua reação contra o aparecimento de nova força internacional. O projeto de desenvolvimento, norteador da política externa brasileira desde 1967, fixou objetivos em três fases:

  • A de consolidação da indústria de transformação (Costa e Silva e Médici) 
  • A consolidação da industria de base (Geisel)
  • A implantação de tecnologias de ponta (Figueiredo e Sarney)

A primeira foi implementada, basicamente, com apoio transnacional, a segunda pelo capital monopolista do Estado e a terceira pela associação do Estado à empresa privada.

15º) O Brasil teve dificuldade no sistema internacional, diminuindo a capacidade brasileira de influir sobre esse sistema, pela adequação de fins e resultados, passando país à categoria de agente passivo de influências, com dificuldade até mesmo de manter os avanços já alcançados. A América Latina não teve lugar importante nos objetivos do desenvolvimento brasileiro, já que sua função situava-se apenas como mercado de produtos industrializados brasileiros. A integração foi concebida – essa era o interesse brasileiro – como integração comercial, cujo processo não vingou, razão por que o comércio do Brasil dirigiu-se com a mesma intensidade para os outros mercados do mundo. Por outras vias, a América Latina não ofereceu suporte às duas primeiras fases do desenvolvimento nacional, mantendo-se as relações interlatino-americanas sem condições de produzir a união, cedendo à bipolaridade e às experiências nacionais diferenciadas.

16º) Nos meados de 1980 – reagindo aos condicionamentos da dívida externa, ao malogro global da frente dos povos atrasados, à redução da capacidade de influir no sistema e ao tradicional menosprezo norte-americano pelos interesses regionais, Brasil e Argentina, convertidos em democracia plena, engajaram novo processo de integração, voltado particularmente às metas da segunda e terceira fases do desenvolvimento brasileiro que, por óbvio, são do interesse de ambos os povos, como também de outros no continente, chamados à participação gradativa, pelos protocolos de 1986.

A “correção” de 1964: um passo fora da cadência

1º) Ao assumir a Presidência da República, em abril de 1964, o general Castello Branco juntamente com o chanceler, Vasco da Cunha, propuseram-se a DESMANTELAR os princípios que regiam a Política Externa Independente, tais como nacionalismo, base da industrialização brasileira, o ideário da Operação Pan-Americana e a autonomia do Brasil em face da divisão bipolar do mundo e da hegemonia norte-americana na América Latina.

2º) A “correção de rumos” que o regime buscou imprimir à política externa com compreendia, por um lado, a catarse (a purificação) da conduta anterior e, por outro, novos padrões substitutivos. Julgou-se necessário retificar o “curso sinuoso” que, sob “rótulos variados”, havia desviado a política externa de suas origens. 

3º) A Chancelaria e a Presidência abriram fogo contra a Política Externa Independente, deturpada e sem “utilidade descritiva” em face da realidade bipolar;

  • contra a política neutralista, que não servia a um país externamente ativo como o Brasil;
  • contra o nacionalismo prejudicial, que afugentava o capital estrangeiro;
  • contra a estatização, que obstruía sua penetração e o desenvolvimento da livre empresa; e
  • contra a ruptura de laços afetivos e políticos com Portugal e o Ocidente, em nome do anticolonialismo

4º) As tendências objeto de crítica por parte do governo cederiam, pois, diante de uma proposta positiva que contemplou três dimensões, para nortear a política externa. Prevaleceram entre 1964 e 1967:

  • A bipolaridade: Além de servir internamente, ao engendrar a noção de inimigo interno, de guerra civil, em que as Forças Armadas passaram a desempenhar as funções policiais, a bipolaridade foi tão relevante externamente, ao ponto de bastar-se como estratégia. Incorporou, com efeito, as categorias do ocidentalismo, da interdependência, da segurança coletiva, da aproximação com os Estados Unidos e da abertura econômica, de forma que se articulassem pela ideologia anticomunista e pela geopolítica. As relações com os Estados Unidos, prioritárias nesse esquema, destinavam-se, após a limpeza de posições ambíguas, a cruzar os interesses econômicos e comerciais com a afinidade política e a segurança coletiva. A opção básica pelo Ocidente significava, portanto, o alinhamento brasileiro com o bloco do Oeste.
  • A Abertura ao capital estrangeiro: Essa dimensão não apresentou, por certo, como uma novidade, a não ser como elemento da bipolaridade e, ainda, enquanto se contrapunha ao nacionalismo e à estatização. Decorreu deu ma convicção equivocada e implícita nas avaliações da direita brasileira – aliás, tanto quanto das esquerdas – acerca da evolução do capitalismo, segundo a qual, ofertadas as condições de liberdade, o capital internacional fluiria espontaneamente. E o governo de Castello propôs-se então a criar as referidas condições, com a finalidade de induzir o desenvolvimento pelo livre jogo do mercado, sem Estado e sem fronteiras.
  • A contradição: Houve dimensões remanescentes, em contração com as duas anteriores, como o nacionalismo e o universalismo mitigados, que denotavam o descompasso entre as diretrizes ideológicas e o realismo da política internacional. Assim, o alinhamento com o Ocidente e os Estados Unidos NÃO implicaria ruptura com “as velhas tendências universais do país” e tampouco “adesão prévia à política de qualquer das grandes potências”. A abertura econômica envolveria o acolhimento “ordenado” do capital estrangeiro e a luta pela reforma da ordem internacional do capitalismo.

5º) O projeto de política externa de Castello Branco assim elaborado teve vida curta e apresentou resultados efêmeros, PORQUE NÃO MARCHAVA COM O TEMPO nem veio a corresponder em escala aceitável a necessidades, interesses e aspirações nacionais. Era inócuo, para um país como o Brasil, de limitado poder, contextualizar sua política externa pelo confronto bipolar, quando o sistema internacional presenciava sua erosão. Com efeito, desde a crise dos mísseis em Cuba e o fim da guerra da Argélia a distensão era encaminhada ao mesmo tempo em que se cindiam internamente os blocos ocidental e socialista, tudo concorrendo para o enfraquecimento do conflito Leste-Oeste, apesar da Guerra do Vietnã

6º) A detente entre EUA e URSS avançou nos governos Kennedy, Johnson e Nixon e sob a era Brejnev:

  • no campo militar, por meio do dialogo, do desarmamento parcial e do controle dos armamentos
  • no campo político, pela vontade de entendimento e cooperação para preservar interesses próprios diante de terceiros
  • no econômico, pelo incremento do comércio bilateral.

7º) Enquanto isso em 1962, De Gaulle passou a contribuir para o enfraquecimento do bloco ocidental. Opôs à doutrina chamada “grande destino“, com que Kennedy pretendeu associar a Europa Ocidental, unida e em igualdade nuclear, porém engajada sob a liderança dos Estados Unidos na luta pelo containment (política norte-americana de prevenção ao comunismo), seu próprio grand dessein, de afirmação nacional e contrapeso à hegemonia norte-americana sobre a Europa e o mundo.

8º) O Japão, que estivera sob a dependência total dos Estados Unidos na década de 50, reformulou sua doutrina de segurança, relaxando os vínculos existentes, desde o início dos anos 60, quando se propôs um universalismo crescente, útil diante do extraordinário desempenho de sua economia. 

9º) Interpretando a detente como conluio das duas superpotências, a China comunista, ainda antes da queda de Kruschev em 1964, rompera com a União Soviética, que lhe negava a transferência de tecnologia nuclear. O sopro de liberdade que passou a varrer a Checoslováquia desde 1963 só foi extinto com a invasão soviética de 1968, para não vir a contagiar outros Estados do bloco socialista.

10º) Em 1962 estava quase concluída a descolonização da África. O Terceiro Mundo irrompeu, a partir de então, como terceira força mundial, solicitada pelos dois blocos, depois pela China, hesitando entre o neutralismo (Índia), o neutralismo positivo (Nasser, no Egito), o alinhamento e o não alinhamento, este último como preferência. Julgaram os povos atrasados ter direito à ajuda internacional para o desenvolvimento, porém o capital seguira o curso dos interesses do concessor, estando condicionado em termos políticos, econômicos e estratégicos.

11º) Os povos subdesenvolvidos tinham pois muitas razões para se queixarem da ajuda internacional, que, além de minguada, era politicamente dirigida, com riscos de dominação, e menos importante que as injustiças do comércio internacional. Suas vozes passaram a fazer coro na ONU, onde obtiveram a convocação de uma Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), instalada pela primeira vez em Genebra, em 1964, com a presença de 123 Estados. Deslocava-se o eixo gravitacional do sistema internacional, no que dizia respeito aos interesses dos povos em vias de desenvolvimento de Leste-Oeste pra Norte-Sul.

12º) Diante desse quadro mundial, a política externa de Castello Branco, calcada na Guerra Fria, apresentava-se como um anacronismo. Criava, como na década de 40, uma expectativa que era só brasileira, destinada pela lógica a recolher idênticas frustrações, quando Cuba fracassava em seu intento de exportar a revolução ao continente, quando o Brasil representava uma necessidade estratégica muito limitada, em termos de segurança coletiva no contexto bipolar, e quando os Estados Unidos podiam prosseguir com sua histórica negligência para com a América Latina.

13º) Mesmo ao pretender recuperar as tradições da política externa brasileira, Castello Branco marchava contra elas. Ao invocar o Barão do Rio Branco, esqueceu-se de que a  aproximação com os Estados Unidos, concebida pelo patrono da diplomacia brasileira, tinha por finalidade preservar a soberania e a segurança diante das investidas do imperialismo. Rompeu Castello com o legado de Vargas, incorporado também à tradição, no sentido de tornar a política externa instrumento de poder a serviço prioritário do interesse nacional, e ainda consentiu em limitar a soberania, agregando-lhe o conceito de segurança coletiva. 

14º) Desde então, todavia, a política externa de Castello Branco passou a recolher críticas que situaram em posição de defesa e, ao caracterizarem sua fragilidade e suas contradições, contribuíram para sua revisão e seu abandono. Provinham de segmentos da imprensa, que avaliaram negativamente o “ocidentalismo“; das Forças Armadas, a cuja linha dura nacionalista repugnava a subserviência aos interesses norte-americanos; do empresariado e das classes médias, descontentes com a desnacionalização da economia e a recessão. O regime militar e sua RADICALIZAÇÃO comprometeram a imagem do pais no exterior, subtraindo credibilidade a sua ação: a Venezuela rompeu relações diplomáticas com o Brasil, o governo dos EUA inquietava-se com as medidas de exceção e a Europa exigia intensa ação diplomática brasileira para “desfazer equívocos”. Nessas condições, a política externa de Castello Branco (1964-1967) foi implementada em conformidade com a bipolaridade e o desenvolvimento associado dependente, sem entretanto manter uma fidelidade perfeita a tais diretrizes.

Distensão e universalismo: a política externa ao final do império

1º) Duas tendências, interagindo uma sobre a outra, caracterizam a política externa brasileira, desde o término da guerra no Sul, até a queda da monarquia, em 1889.   A distensão externa, desejada e administrada pelo Estado, convinha por inúmeras razões:

  • Os efeitos da guerra somente foram positivos por que a vontade nacional atingiu seu fim; de resto, desviaram recursos e provocaram grave crise política interna, a primeira manifestação do militarismo e o protesto de todo o continente
  • A paziguaram-se velhos atritos do lado da Inglaterra, do Amazonas, das fronteiras em geral
  • A distensão era condição para conduzir as relações com a República Argentina sem nova guerra

2º) Pretendia-se, entretanto, imprimir maior prestígio e extensão para a ação externa – e nesse sentido eram programadas importantes viagens do Imperador pelo mundo, o Brasil marcava presença em congressos, feiras e foros de arbitramento internacionais, buscava o contato com o Oriente e aceitava, enfim, juntamente com os Estados Unidos, envolver-se com pan-americanismo. 

3º) As duas tendências, distensão e universalismo, como introspecção e dilatação, respondiam presumivelmente a apelos contraditórios das circunstâncias. Como na época da regência, a nação volta-se novamente para a solução de problemas internos:

  • Abolição da escravatura
  • A propaganda republicana
  • A necessidade de mão de obra
  • Reordenamento do aparelho de Estado em conformidade com os novos grupos hegemônicos, oriundos da expansão cafeeira

4º) Por outro lado, o retraimento não era aconselhável, no momento em que as relações internacionais se ampliavam com o apogeu da expansão colonial europeia, o crescimento da concorrência internacional resultante da nova onde de progresso, a queda dos preços agrícolas e o retorno ao protecionismo, que acentuava as rivalidades e desencadeava guerras de tarifas quando fracassavam as negociações dos tratados de comércio. A Alemanha bismarckiana agenciava as relações intereuropeias e se preparava, como o Japão e os Estados Unidos, para desempenhar um papel mais ativo no cenário mundial, que se encaminhava decididamente nas vias do imperialismo.

5º) O sistema internacional não se tornava mais complexo, porque tinha nesse novo estágio da evolução capitalista (imperialismo/expansão colonial) seu fio condutor , mas demandava dos Estados decisões de circunstância, com as quais a política viabilizava as possibilidades de dominação ou emancipação. Nesse sentido, há de se analisar, por exemplo, a diplomacia de prestígio e sobretudo o novo pan-americanismo.